Melodrama (in)existente.

Não sou afeito a escrita, mas hoje um amor dilacerante me impulsionou a executá-la. Talvez seja possível nisso tirar algum proveito ou somente matar o tempo se dispusermos dele.

Frequentemente, indagações me perseguem. Me pegam desapercebidamente nos intervalos da vida em meio a correria cotidiana do trabalho, durante as filas, antes de dormir e no instante em que estou para me levantar. Acontecem também no banho, na escovação dos dentes, e até mesmo naqueles momentos em que ao amarrar os cadarços, de repente, o meu olhar vagueia e encontra o rejunte do assoalho. Parece que elas ficam à espreita, na espera de um descuido qualquer para surgirem  e me levarem à loucura.

Algumas dessas inquietações são criadas por mim, outras retiro de músicas, livros, filmes e situações que, às vezes, acrescento um pouco de imaginação e transformo em delírios e devaneios tão críveis que adoeço.

Recentemente conheci Sinclair, um rapaz que pensa consigo a respeito de uma figura recorrente que lhe aparece em pensamento. Ele deduz que essa figura: “Estás ligada a mim, mas não tu mesma e sim a tua imagem: és parte do meu destino”. Isso me fez lembrar daquelas pessoas que só existem no nosso pensamento, e que de alguma maneira tornam-se parte do nosso “destino” (tenho instrução suficiente para não acreditar, entretanto…) seja porque queremos, ou porque elas assim querem.

Mantenho em mim um amor outro, não explicitado. Isso porque não fui capaz de declarar àquela as minhas intenções, apesar das tentativas de deixar subentendido, não obtive grandes sucessos. Talvez por incapacidade minha, ou desinteresse dela.

A questão é que esse amor me é permanente e se modifica com o tempo, na frequência em que conheço alguém novo. O ser existe mas somente pra mim, no imaginário, o tempo e a vida incumbiram-se de nos afastar. Há tempos carrego comigo esse amor platônico, idealizado, romantizado. Por não vê-la cobiço desconhecidas, ilusões que em princípio me chegam imperceptíveis, e logo; tomam conta do meu inconsciente tornando-se parte daquela figura que existe só em pensamento.

Quanto tempo somos capazes de olhar fixamente nos olhos de uma pessoa? Quanto dura uma troca de olhares? Quando isso acontece e se torna passado, por quanto tempo esse olhar permanece em nós? É possível a faísca de um desejo tornar-se chama a distância e ainda arder?

Não sei se de fato existiu, mas em mim existe um olhar preso. E agora, toda vez que olho fixamente nos olhos de alguém a lembrança me atordoa, no entanto, desejo isso e saio em busca dos olhares demorados, às vezes com ternura, outras com malícia, pois sinto a necessidade de alimentar meu amor intangível.